segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Refugiados Saharauis - Dakhla, Argélia.






ELA

É agora. Sei-o porque os dias findam mais tarde sem que o frio peça abrigo. As aves já deixaram de passar por aqui, em busca de paragens mais amenas. E, às vezes, sinto a brisa do mar. É sempre nesta altura que eles chegam. Vêm de todo o Mundo, um Mundo que nos esqueceu. Trazem máquinas fotográficas, câmaras de filmar, blocos de notas, uma palavra amiga. Ou palavras de ordem, em línguas exóticas, inscritas em faixas que pretendem colocar ao longo do muro. Esse longo muro que me separa dele. 2.500 quilómetros que nos privam, aos dois, de ser quem somos. Não agora, que todos estes olhos estão sobre nós. Também os meus podem, finalmente, revê-lo. Observar-me no reflexo dos seus, castanhos, enormes, que perdem, então, aquele estranho brilho de quem espera o combate. E os seus dedos afrouxam, uma vez ao ano, a pressão sobre o gatilho. Lutam todos eles por nós. Lutamos, os dois, por ambos. A minha mãe abserva-nos, num misto de sorriso compreensivo e ar reprovador, quando deixamos o grupo e caminhamos, sós, para as dunas. Teme que eu sofra. Como ela sofreu com a morte do meu pai, quando a Frente POLISARIO era tudo o que esta gente tinha. Eu e ele temos mais. Mas nada podemos se não pudermos jurar amor em hassânia, numa terra que seja, para sempre e sem mais lutas, a nossa.

ELE

Limpo a AK7 como quase todos os dias. Porque é, por ora, tudo o que podemos fazer. Eu e alguns milhares de guerrilheiros Saharauis que esperamos, deste lado do muro, há tempo demais, que a Comunidade Internacional tome as devidas medidas. Tão pouco é vingar os meus pais que, comigo em braços e fome nas entranhas, fugiram da Marcha Verde e de uma morte certa. É aguardar que, para lá desta muralha, minas e arame farpado, os marroquinos retirem daquela que é nossa terra. Não este lugar, inóspito, onde só mesmo nós, descendentes de beduínos e habituados ás maiores privações conseguimos sobreviver. Mas aquela terra de que tivemos que nos apartar há quase 35 anos. Que guarda riquezas inimagináveis e, só por isso, nos foi tão desonestamente furtada. Espero nunca ter de combater. Pelo menos é isso que , agora, sinto, porque aqui, em Dakhla, o campo de refugiados saharauis na Argélia, reencontro-a uma vez por ano. Porque é tempo de contar estórias que a história esqueceu a esta gente que se solidariza com a nossa causa e quer mostrá-la ao mundo. É tempo de amor. E mesmo que não fosse... teria sempre os seus olhos.

ELE E ELA

Caminham, agora, em direcção àquela duna de onde avistam o infinito Sahara até que o sol se espraie e dê lugar às estrelas. Esse céu que só quem viu sabe que encerra a noção de que nós, os homens, podemos tão pouco. Conversam. Não nos cabe a nós saber do que falam. Cabe ao mundo saber que, os dois, juntos agora como afastados a maior parte do tempo, carregam aos ombros esse peso de não poder ser. Como 260 mil Saharauis. Há tempo demais!

Texto Nuno Miguel Dias
Fotografias Zito Colaço

2 comentários:

Alfama disse...

Valeu a pena esperar. Parabéns. Beijos, Isa

Diário de Lisboa disse...

Fabuloso Zito ,simplesmente fabuloso, otexto e as fotos.
abraço.
AL